segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Vidas Secas – Graciliano Ramos
                        Vidas Secas foi o romance responsável por popularizar Graciliano Ramos ao retratar a vida de uma família de retirantes: Fabiano, Sinhá Vitória, “o menino mais velho”, “o menino mais novo” e a cachorra Baleia. Publicado em 1938, ultrapassou as tendências regionalistas da geração de 1930 e foi o único romance do autor escrito em terceira pessoa.
                        Em Vidas secas, a grande obra regionalista modernista, o drama social do Nordeste é representado nas figuras humanas marcadas pela miséria e pela seca da região.
RESUMO DO LIVRO
            O romance narra a história da retirada de uma família de nordestinos por causa da seca. Através da narrativa, o leitor entra em contato com o sertão e o sofrimento da família deFabiano. Observa-se que mal há comunicação entre eles; as crianças não têm nomes, o que demarca fortemente o processo de animalização das personagens para frisar a vida dos fugitivos da seca.
            Anseios, sonhos, frustrações e muito sofrimento vêm à tona enquanto a família se retira. É interessante a inversão de papéis que há entre Fabiano e a cachorra Baleia, enquanto o humano é zoomorfizado, o animal é antropomorfizado, ou seja, Fabiano está mais próximo de um animal, e Baleia é humanizada, tem nome e pensa.
            Fabiano arruma um emprego de vaqueiro numa propriedade que a família ocupa na época da chuva. É preso injustamente pelo soldado amarelo, que, neste caso, representa a autoridade do governo. Com a prisão, o personagem analisa a sua própria condição de homem-bicho e se dá por vencido diante das desilusões em relação à vida dos filhos. O vaqueiro é sempre ameaçado de demissão pelo patrão que o rouba nas contas.
            Sinhá Vitória é impaciente com os filhos, sua ignorância é menor que a do marido, pois pensa com clareza e sabe contar.
            Baleia pensa e sente como um humano. Na trama ela adoece, fato que leva o vaqueiro a pensar que está com hidrofobia e matá-la. Com a agonia da morte, a cachorra faz uma autoanálise e não compreende os motivos do dono, enfim, morre sonhando com um mundo cheio de preás gordos.
            A seca volta e anuncia um tempo de miséria e fome. Sinhá Vitória vê o futuro com otimismo e transmite paz a Fabiano que analisa sua vida. Com a seca, os retirantes deixam a casa da fazenda e recomeçam a andança sem rumo retratada no início da narrativa.
ESTRUTURA DA OBRA
            Graciliano Ramos escreveu cada capítulo de Vidas secas como se fossem episódios separados e independentes dos outros. Assim, se tem fragmentos que se unem para formar um todo a partir do próprio leitor. A retomada no início da narrativa no final da obra é proposital, haja vista que não há fim determinado, deixando o caminho livre para a imaginação do leitor.
            O foco narrativo da obra está em terceira pessoa, marcado pelo narrador onisciente que mergulhar no interior das personagens a fim de trazer à tona pensamentos e sentimentos humanizados. Usando, várias vezes, o discurso indireto livre, visto que a família pouco fala e precisa de ajuda do narrador nesse quesito, Graciliano montou um quadro que extrapola os limites do simples regional. É importante saber que embora raras, as falas das personagens aparecem em discurso direto. Há também monólogos internos, já que as personagens por nãos e expressarem bem evitam conversar entre si.
            O tempo na obra está voltado para o psicológico, haja vista que não se estabelecem datas cronológicas. As ações das personagens ocorrem entre uma seca e outra, entretanto, não é possível determinar um tempo cronológico exato.
            O espaço da obra é o sertão nordestino, bem definido nas descrições e caracterizações.
PRINCIPAIS PERSONAGENS
Fabiano – é um homem que apesar das adversidades é capaz de se analisar, mesmo possuindo dificuldades de comunicação. Na maioria das vezes se comunica por meio de sons e interjeições, portanto percebe-se que tal fato assemelha-se ao mundo animal (zoomorfização). Fabiano tem complexo de inferioridade, por isso submete-se às autoridades e aos poderosos. É conformado com vida que ele e sua família têm e atribui isso ao destino. Na obra é a representação alegórica da seca.
Sinhá Vitória – mulher de Fabiano, é determinada e forte. É impaciente com os cuidados da casa e dos filhos. Tem uma percepção superior a do esposo e é capaz de pensar com clareza e objetividade. Além de tudo, sabe contar. Tem a habilidade de manter acesa a esperança de um futuro melhor para ela e sua família.
O menino mais nov– esse filho quase não se comunica, mas adora pensar que um dia quando crescer será admirado e respeitado pelo irmão e pela cachorra. Sonha em ser vaqueiro, tal qual ao pai.
O menino mais velho – sem amigos e solitário, vê na cachorra a única amizade possível. É bastante curioso e adora fazer perguntas, entretanto, é sempre repreendido. Sonha em ter um amigo.
Baleia – é uma cachorra que possui sentimentos e pensamentos humanos, daí a antropomorfização. No início da narrativa, ela salva a família da fome ao caçar preás. É morta por Fabiano, pois apresentava sintomas de raiva. Baleia é a representatividade da fidelidade ao dono e sua família; não entende as atitudes humanas e não compreende os pontapés que ganha sem motivo.
Soldado amarelo – símbolo da autoridade do governo e da injustiça contra os mais fracos.
Patrão – símbolo da opressão dos poderosos e da exploração do trabalho alheio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 23. ed. São Paulo: Martins, 1969.
AZEVEDO, Alexandre. SÁ, Sheila Pelegri de. LITERATURA: segunda geração modernista. Ético Sistema de Ensino, 2012.
                                                                                  http://www.coladaweb.com/resumos/vidas-secas

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA
                        Os abalos sofridos pelo povo brasileiro em torno dos acontecimentos de 1930, a crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, a crise cafeeira, a Revolução de 1930 e o acelerado declínio do Nordeste condicionaram um novo estilo ficcional, notadamente mais adulto, mais amadurecido, mais moderno, que se marcaria pela rudeza, por uma linguagem mais brasileira, por um enfoque direto dos fatos, por uma retomada do naturalismo. Principalmente no plano da narrativa documental, temos também o romance nordestino, liberdade temática e rigor estilístico.
                        Os romancistas de 30 caracterizavam-se por adotarem visão crítica das relações sociais, regionalismo ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, cidade, o homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe.

      Sobre Graciliano Ramos
Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 27 de outubro de 1892. Terminando o segundo-grau em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais "Correio da Manhã" e "A Tarde", passou a fazer jornalismo e política, elegendo-se prefeito em 1927.
Em 1915 volta para o Alagoas e casa-se com Maria Augusta de Barros, que falece em 1920 e o deixa com quatro filhos.
Trabalhando como prefeito de uma pequena cidade interiorana, foi convencido por Augusto Schmidt a publicar seu primeiro livro, "Caetés" (1933), com o qual ganhou o prêmio Brasil de Literatura. Entre 1930 e 1936 morou em Maceió e seguiu publicando diversos livros enquanto trabalhava como editor, professor e diretor da Instrução Pública do Estado. Foi preso político do governo Getúlio Vagas enquanto se preparava para lançar "Angústia", que conseguiu publicar com a ajuda de seu amigo José Lins do Rego em 1936. Em 1945 filia-se ao Partido Comunista do Brasil e realiza durante os anos seguintes uma viagem à URSS e países europeus junto de sua segunda esposa, o que lhe rende seu livro "Viagem" (1954).
Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu "Memórias do Cárcere", um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere, morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro.
Graciliano estreou em 1933 com "Caetés". Outro livro seu, "São Bernardo", é verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram "Angústia" (1936) e "Vidas Secas" (1938), inspirados em Machado de Assis.
Artista do segundo movimento modernista, Graciliano Ramos denunciou fortemente as mazelas do povo brasileiro, principalmente a situação de miséria do sertão nordestino. Adoece gravemente em 1952 e vem a falecer de câncer do pulmão em 20 de março de 1953 aos 60 anos.

Suas principais obras são: "Caetés" (1933), "São Bernardo" (1934), "Angústia" (1936), "Vidas Secas" (1938), "Infância" (1945), "Insônia" (1947), "Memórias do Cárcere" (1953) e "Viagem" (1954).
                                   Podemos justificar isto com passagens do texto:
  • "Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos."
  • "A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas"
  • "Resolvera de supetão aproveitá-lo (papagaio) como alimento..."
  • "Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores."

 

ESTUDO DA LINGUAGEM

Tipo de discurso: indireto livre.
Foco narrativo: terceira pessoa.
Adjetivos, figuras de linguagem:
Metáfora: " - Você é um bicho, Fabiano."
Prosopopéia: compara Baleia com gente.

ANÁLISE DAS IDEIAS

Comentário Crítico:

Esse livro retrata fielmente a realidade brasileira. Não só da época em que o livro foi escrito, mas também nos dias de hoje, relatando situações como injustiça social, miséria, fome, desigualdade, seca, o que nos remete à ideia de que o homem se animalizou sob condições sub-humanas de sobrevivência.
O livro possui 13 capítulos que, por não terem uma linearidade temporal, podem ser lidos em qualquer ordem. Porém, o primeiro, "Mudança", e o último, "Fuga", devem ser lidos nessa sequência, pois apresentam uma ligação que fecha um ciclo. "Mudança" narra as agruras da família sertaneja na caminhada impiedosa pela aridez da caatinga, enquanto que em "Fuga" os retirantes partem da fazenda para uma nova busca por condições mais favoráveis de vida. Assim, pode-se dizer que a miséria em que as personagens vivem em Vidas Secas representa um ciclo. Quando menos se espera, a situação se agrada e a família é obrigada a se mudar novamente.

Mudança

Em meio à paisagem hostil do sertão nordestino, quatro pessoas e uma cachorrinha se arrastam numa peregrinação silenciosa. O menino mais velho, exausto da caminhada sem fim, deita-se no chão, incapaz de prosseguir, o que irrita Fabiano, seu pai, que lhe dá estocadas com a faca no intuito de fazê-lo levantar. Compadecido da situação do pequeno, o pai toma-o nos braços e carrega-o, tornando a viagem ainda mais modorrenta.
A cadela Baleia acompanha o grupo de humanos agora sem a companhia do outro animal da família, um papagaio, que fora sacrificado na véspera a fim de aplacar a fome que se abatia sobre aquelas pessoas. Na verdade, era um papagaio estranho, que pouco falava, talvez porque convivesse com gente que também falava pouco.
Errando por caminhos incertos, Fabiano e família encontram uma fazenda completamente abandonada. Surge a intenção de se fixar por ali. Baleia aparece com um preá entre os dentes, causando grande alegria aos seus donos. Haveria comida. Descendo ao bebedouro dos animais, em meio à lama, Fabiano consegue água. Há uma alegria em seu coração, novos ventos parecem soprar para a sua família. Pensa em Seu Tomás da bolandeira.  Pensa na mulher e nos filhos.
A inesperada caça é preparada, o que garante um rápido momento de felicidade ao grupo. No céu, já escuro, uma nuvem - sempre um sinal de esperança. Fabiano deseja estabelecer-se naquela fazenda. Será o dono dela. A vida melhorará para todos.

Fabiano  

Em vão Fabiano procura por uma raposa. Apesar do fracasso da empreitada, ele está satisfeito. Pensa na situação da família, errante, passando fome, quando da chegada àquela fazenda. Estavam bem agora. Fabiano se orgulha de vencer as dificuldades tal qual um bicho. Agora ele era um vaqueiro, apesar de não ter um lugar próprio para morar. A fazenda aparentemente abandonada tinha um dono, que logo aparecera e reclamara a posse do local. A solução foi ficar por ali mesmo, servindo ao patrão, tomando conta do local. Na verdade, era uma situação triste, típica de quem não tem nada e vive errante.  Sentiu-se novamente um animal, agora com uma conotação negativa. Pouco falava, admirava e tentava imitar a fala difícil das pessoas da cidade. Era um bicho.
A uma pergunta de um dos filhos, Fabiano irrita-se. Para que perguntar as coisas? Conversaria com Sinhá Vitória sobre isso. Essas coisas de pensamento não levavam a nada. Seu Tomás da bolandeira, apesar de admirado por Fabiano pelas suas palavras difíceis, não acabara como todo mundo? As palavras, as ideias, seduziam e cansavam Fabiano.
Pensou na brutalidade do patrão, a tratá-lo como um traste. Pensou em Sinhá Vitória e seu desejo de possuir uma cama igual à de Seu Tomás da bolandeira. Eles não poderiam ter esse luxo, cambembes que eram. Sentiu-se confuso. Era um forte ou um fraco, um homem ou um bicho? Sentia, por vezes, ímpeto de lutador e fraqueza de derrotado.
Lembrando dos meninos, novamente, achou que, quando as coisas melhorassem, eles poderiam se dar ao luxo daquelas coisas de pensar. Por ora, importante era sobreviver. Enquanto as coisas não melhorassem, falaria com Sinhá Vitória sobre a educação dos pequenos.

Cadeia

Fabiano vai à feira comprar mantimentos, querosene e um corte de chita vermelha. Injuriado com a qualidade do querosene e com o preço da chita, resolve beber um pouco de pinga  na bodega de seu Inácio. Nisso, um soldado amarelo convida-o para um jogo de cartas. Os dois acabam perdendo, o que irrita o soldado, que provoca Fabiano quando esse está de partida. A ideia do jogo havia sido desastrosa. Perdera dinheiro, não levaria para casa o prometido. Fabiano, agora, pensava em como enganar Sinhá Vitória, mas a dificuldade de engendrar um plano o atormentava.
O soldado, provocador, encara o vaqueiro e barra-lhe a passagem. Pisa no pé de Fabiano que, tentando contornar a situação à sua maneira, aguenta os insultos até o possível, terminando por xingar a mãe do soldado amarelo. Destacamento à sua volta. Cadeia. Fabiano é empurrado, humilhado publicamente.
No xadrez, pensa por que havia acontecido tudo aquilo com ele. Não fizera nada, se quisesse até bateria no mirrado amarelo, mas ficara quieto. Em meio a rudes indagações, enfureceu-se, acalmou-se, protestou inocência. Amolou-se com o bêbado e com a quenga que estavam em outra cela. Pensou na família. Se não fosse Sinhá Vitória e as crianças, já teria feito uma besteira por ali mesmo. Quando deixaria que um soldadinho daqueles o humilhasse tanto? Arquitetou vinganças, gritou com os outros presos e, no meio de sua incompreensão com os fatos, sentiu a família como um peso a carregar.

Sinhá Vitória

Naquele dia, Sinhá Vitória amanhecera brava. A noite mal dormida na cama de varas era o motivo de sua zanga. Falara pela manhã, mais uma vez, com Fabiano sobre a dificuldade de dormir naquela cama. Queria uma cama de lastro de couro, como a de Seu Tomás da bolandeira, como a de pessoas normais.
Havia um ano que discutia com o marido a necessidade de uma cama decente e, em meio a uma briga por causa das "extravagâncias" de cada um, Sinhá Vitória certa vez ouviu Fabiano dizer-lhe que ela ficava ridícula naqueles sapatos de verniz, caminhando como um papagaio, trôpega, manca. A comparação machucou-a.
Agora, ela irritava-se com o ronco de Fabiano ao lembrar-se de suas palavras. Circulando pela casa, fazia suas tarefas em meio à reza e à atenção ao que acontecia lá fora. Por pensar ainda na cama e na comparação maldosa de Fabiano, quase esqueceu de pôr água na comida. Veio-lhe a lembrança do bebedouro em que só havia lama. Medo da seca. Olhou de novo para seus pés e inevitavelmente achou Fabiano mau. Pensou no papagaio e sentiu pena dele.
Lá fora, os meninos brincavam em meio à sujeira. Dentro de casa, Fabiano roncava forte, seguro, o que indicava a Sinhá Vitória que não deveria haver perigo algum por ali. A seca deveria estar longe. As coisas, agora, pareciam mais estáveis, apesar de toda a dificuldade. Lembrou-se de como haviam sofrido em suas andanças. Só faltava uma cama. No fundo, até mesmo Fabiano queria uma cama nova.

O menino mais novo 

A imagem altiva do pai foi que lhe fez surgir a ideia. Fabiano, armado como vaqueiro, domava a égua brava com o auxílio de Sinhá Vitória. O espetáculo grosseiro excitava o menor dos garotos, impressionado com a façanha do pai e disposto a fazer algo que também impressionasse o irmão mais velho e a cachorra Baleia. No dia seguinte, acordou disposto a imitar a façanha do pai. Para tanto, quis comunicar a intenção ao mano, mas evitou, com medo de ser ridicularizado.
Quando as cabras foram ao bebedouro, levadas pelo menino mais velho e por Baleia, o pequeno tomou o bode como alvo de sua ação. Sentia-se altivo como Fabiano quando montava. No bebedouro, o garoto despencou da ribanceira sobre o animal, que o repeliu. Insistente, tentou se aprumar mas foi sacudido impiedosamente, praticando um involuntário salto mortal que o deixou, tonto, estatelado ao chão. O irmão mais velho ria sem parar do ridículo espetáculo, Baleia parecia desaprovar toda aquela loucura. Fatalmente seria repreendido pelos pais. Retirou-se humilhado, alimentando a raivosa certeza de que seria grande, usaria roupas de vaqueiro, fumaria cigarros e faria coisas que deixariam Baleia e o irmão admirados.

O menino mais velho

Aquela palavra tinha chamado a sua atenção: inferno. Perguntou à Sinhá Vitória, vaga na resposta. Perguntou a Fabiano, que o ignorou. Na volta à Sinhá Vitória, indagou se ela já tinha visto o inferno. Levou um cascudo e fugiu indignado. Baleia fez-lhe companhia tentando alegrá-lo naquela hora difícil.
Decidiu contar à cachorrinha uma história, mas o seu vocabulário era muito restrito, quase igual ao do papagaio que morrera na viagem. Só Baleia era sua amiga naquele momento. Por que tanta zanga com uma palavra tão bonita? A culpa era de Sinhá Terta, que usara aquela palavra na véspera, maravilhando o ouvido atento do garoto mais velho.
Olhou para o céu e sentiu-se melancólico. Como poderiam existir estrelas? Pensou novamente no inferno. Deveria ser, sim, um lugar ruim e perigoso, cheio de jararacas e pessoas levando cascudos e pancadas com a bainha da faca. Sempre intrigado, abraçou-se à Baleia como refúgio.

Inverno

Todos estavam reunidos em volta do fogo, procurando aplacar o frio causado pelo vento e pela água que agitava a paisagem fora da casa. Chegara o inverno, e isso reunia a família próxima à fogueira. Pai e mãe conversavam daquele jeito de sempre, estranho, e os meninos, deitados, ficavam ouvindo as histórias inventadas por Fabiano, de feitos que ele nunca tinha realizado, aventuras nunca vividas. Quando o mais velho levantou-se para buscar mais lenha, foi repreendido severamente pelo pai, aborrecido pela interrupção de sua narrativa.
A chuva dava à família a certeza de que a seca não chegaria por enquanto. Isso alegrava Fabiano. Sinhá Vitória, porém, temia por uma inundação que os fizesse subir ao morro, novamente errantes. A água, lá fora, ampliava sua invasão.
Fabiano empolgava-se mais ainda em contar suas façanhas. A chuva tinha vindo em boa hora. Após a humilhação na cidade, decidira que, com a chegada da seca, abandonaria a família e partiria para a vingança contra o soldado amarelo e demais autoridades que lhe atravessassem o caminho. A chegada das águas interrompera aqueles planos sinistros. Em meio à narrativa empolgada, Fabiano imaginava que as coisas melhorariam a partir dali; quem sabe, Sinhá Vitória até pudesse ter a cama tão desejada.
Para o filho mais novo, o escuro e as sombras geradas pela fogueira faziam da imagem do pai algo grotesco, exagerado. Para o mais velho, a alteração feita por Fabiano na história que contava era motivo de desconfiança. Algo não cheirava bem naquele enredo. Sempre pensativo, o menino mais velho dormiu pensando na falha do pai e nos sapos que estariam lá fora, no frio. 
Baleia, incomodada com a arenga de Fabiano, procurava sossego naquela paisagem interior. Queria dormir em paz, ouvindo o barulho de fora.

Festa

A família foi à festa de Natal na cidade. Todos vestidos com suas melhores roupas, num traje pouco comum às suas figuras, o que lhes dava um ar ridículo. A caminhada longa tornava-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. O mal-estar era geral, até que Fabiano cansou-se da situação e tirou os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fizeram o mesmo. Voltaram ao seu natural. Baleia juntou-se ao grupo.
Chegando à cidade, foram todos lavar-se à beira de um riacho antes de se integrarem à festa. Sinhá Vitória carregava um guarda-chuva. Fabiano marchava teso. Os meninos maravilham-se, assustados, com tantas luzes e gente. A igreja, com as imagens nos altares, encantou-os mais ainda. O pai espremia-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Sentia-se mangado por aquelas pessoas que o viam em trajes estranhos à sua bruta feição. Ninguém na cidade era bom. Lembrou-se da humilhação imposta pelo soldado amarelo quando estivera pela última vez na cidade.
A família saiu da igreja e foi ver o carrossel e as barracas de jogos. Como Sinhá Vitória negou-lhe uma aposta no bozó, Fabiano afastou-se da família e foi beber pinga. Embriagando-se, foi ficando valente. Imaginava, com raiva, por onde andava o soldado amarelo. Queria esganá-lo. No meio da multidão, gritava, provocava um inimigo imaginário. Queria bater em alguém, poderia matar se fosse o caso. Vez ou outra, interrompia suas imprecações para uma confusa reflexão. Cansado do seu próprio teatro, Fabiano deitou no chão, fez das suas roupas um travesseiro e dormiu pesadamente.
Sinhá Vitória, aflita, tinha que olhar os meninos, não podia deixar o marido naquele estado. Tomando coragem para realizar o que mais queria naquele momento, discretamente esgueirou-se para uma esquina e ali mesmo urinou. Em seguida, para completar o momento de satisfação, pitou num cachimbo de barro pensando numa cama igual à de seu Tomás da bolandeira.
Os meninos também estavam aflitos. Baleia sumira na confusão de pessoas, e o medo de que ela se perdesse e não mais voltasse era grande. Para alívio dos pequenos, a cachorrinha surge de repente e acaba com a tensão. Restava, agora, aos pequenos, o maravilhamento com tudo de novo que viam. O menor perguntou ao mais velho se tudo aquilo tinha sido feito por gente. A dúvida do maior era se todas aquelas coisas teriam nome. Como os homens poderiam guardar tantas palavras para nomear as coisas?
Distante de tudo, Fabiano roncava e sonhava com soldados amarelos.

Baleia

Pelos caídos, feridas na boca e inchaço nos beiços debilitaram Baleia de tal modo que Fabiano achou que ela estivesse com raiva. Resolveu sacrificá-la. Sinhá Vitória recolheu os meninos, desconfiados,  a fim de evitar-lhes a cena.
Baleia era considerada como um membro da família, por isso os meninos protestaram, tentando sair ao terreiro para impedir a trágica atitude do pai. Sinhá Vitória lutava com os pequenos, porque aquilo era necessário, mas aos primeiros movimentos do marido para a execução, lamentou o fato de que ele não tivesse esperado mais para confirmar a doença da cachorrinha.
Ao primeiro tiro, que pegou o traseiro da cachorra e inutilizou-lhe uma perna, as crianças começaram a chorar desesperadamente.
Começou, lá fora, o jogo estratégico da caça e do caçador. Baleia sentia o fim próximo, tentava esconder-se e até desejou morder Fabiano. Um nevoeiro turvava a visão da cachorrinha, havia um cheiro bom de preás. Em meio à agonia, tinha raiva de Fabiano, mas também o via como o companheiro de muito tempo. A vigilância às cabras, Fabiano, Sinhá Vitória e as crianças surgiam à Baleia em meio a uma inundação de preás que invadiam a cozinha. Dores e arrepios. Sono. A morte estava chegando para Baleia.

Contas

Fabiano retirava para si parte do que rendiam os cabritos e os bezerros. Na hora de fazer o acerto de contas com o patrão, sempre tinha a sensação de que havia sido enganado. Ao longo do tempo, com a produção escassa, não conseguia dinheiro e endividava-se.
Naquele dia, mais uma vez Fabiano pedira a Sinhá Vitória para que ela fizesse as contas. O patrão, novamente, mostrou-lhe outros números. Os juros causavam a diferença, explicava o outro. Fabiano reclamou, havia engano, sim senhor, e aí foi o patrão quem estrilou. Se ele desconfiava, que fosse procurar outro emprego. Submisso, Fabiano pediu desculpas e saiu arrasado, pensando mesmo que Sinhá Vitória era quem errara.
Na rua, voltou-lhe a raiva. Lembrou-se do dia em que fora vender um porco na cidade e o fiscal da prefeitura exigira o pagamento do imposto sobre a venda. Fabiano desconversou e disse que não iria mais vender o animal. Foi a uma outra rua negociar e, pego em flagrante, decidiu nunca mais criar porcos.
Pensou na dificuldade de sua vida. Bom seria se pudesse largar aquela exploração. Mas não podia! Seu destino era trabalhar para os outros, assim como fora com seu pai e seu avô.
As notas em sua mão impressionavam-no. "Juros", palavra difícil que os homens usavam quando queriam enganar os outros. Era sempre assim: bastavam palavras difíceis para lograr os menos espertos. Contou e recontou o dinheiro com raiva de todas aquelas pessoas da cidade. Sinhá Vitória é que entendia seus pensamentos.
Teve vontade de entrar na bodega de seu Inácio e tomar uma pinga. Lembrou-se da humilhação passada ali mesmo e decidiu ir para casa. O céu, várias estrelas. Deixou de lado a lembrança dos inimigos e pensou na família. Sentiu dó da cachorra Baleia. Ela era um membro da família.

O Soldado Amarelo

Procurando uma égua fugida, Fabiano meteu-se por uma vereda e teve o cabresto embaraçado na vegetação local. Facão em punho, começou a cortar as quipás e palmatórias que impediam o prosseguimento da busca. Nesse momento, depara-se com o soldado amarelo que o humilhara um ano atrás. O cruzar de olhos e o reconhecimento durou fração de segundos. O suficiente para que Fabiano esfolasse o inimigo. O soldado claramente tremia de medo. Também reconhecera o desafeto antigo e pressentia o perigo.
Fabiano irritou-se com a cena. O outro era um nadica. Poderia matá-lo com as mãos, sem armas, se quisesse. A fragilidade do outro aos poucos foi aplacando a raiva de Fabiano. Ponderou que ele mesmo poderia ter evitado a noite na cadeia se não tivesse xingado a mãe do amarelo. No meio daquela paisagem isolada e hostil, só os dois, e se ele pedisse passagem ao soldado? Aproximou-se do outro pensando que já tinha sido mais valente, mais ousado. Na verdade, na fração de segundo interminável Fabiano ia descobrindo-se amedrontado. Se ele era um homem de bem, para que arruinar a sua vida matando uma autoridade? Guardaria forças para inimigo maior.
Sentindo o inimigo acovardado, o soldado ganhou força. Avançou firme e perguntou o caminho. Fabiano tirou o chapéu numa reverência e ainda ensinou o caminho ao amarelo.

O Mundo Coberto de Penas

A invasão daquele bando de aves denunciava a chegada da seca. Roubavam a água do gado, matariam bois e cabras. Sinhá Vitória inquietou-se. Fabiano quis ignorar, mas não pôde; a mulher tinha razão. Caminhou até o bebedouro, onde as aves confirmavam o anúncio da seca. Eram muitas. Um tiro de espingarda eliminou cinco, seis delas, mas eram muitas. Fabiano tinha certeza, agora, de uma nova peregrinação, uma nova fuga.
Era só desgraça atrás de desgraça. Sempre fugido, sempre pequeno. Fabiano não se conformava, pensava com raiva no soldado amarelo, achava-se um covarde, um fraco. Irado, matou mais e mais aves. Serviriam de comida, mas até quando? Quem sabe a seca não chegasse...Era sempre uma esperança. Mas o céu escuro de arribações só confirmava a triste situação. Elas cobriam o mundo de penas, matando o gado, tocando a ele e à família dali, quem sabe comendo-os.
Recolheu os cadáveres das aves e sentiu uma confusão de imagens em sua cabeça. Aquele lugar não era bom de se viver. Lembrou-se de Baleia, tentou se convencer de que não fizera errado em matá-la, pensou de novo na família e no que as arribações representavam. Sim, era necessário ir embora daquele lugar maldito. Sinhá Vitória era inteligente, saberia entender a urgência dos fatos.

Fuga

O céu muito azul, as últimas arribações e os animais em estado de miséria indicavam a Fabiano que a permanência naquela fazenda estava esgotada. Chegou um ponto em que, dos animais, só sobrou um bezerro, que foi morto para servir de comida na viagem que se faria no dia seguinte.
Partiram de madrugada, abandonando tudo como encontraram. O caminho era o do Sul. O grupo era o mesmo que errava como das outras vezes. Fabiano, no fundo, não queria partir, mas as circunstâncias convenciam-no da necessidade. 
A vermelhidão do céu e o azul que viria depois assustavam Fabiano. Baleia era uma imagem constante em seus confusos pensamentos. Sinhá Vitória também fraquejava. Queria, precisava falar. Aproximou-se do marido e disse coisas desconexas, que foram respondidas no mesmo nível de atrapalhação.

Na verdade, ele gostou que ela tivesse puxado conversa. Ela tentou animar o marido, quem sabe a vida fosse melhor, longe dali, com uma nova ocupação para ele. Marido e mulher elogiam-se mutuamente; ele é forte, aguenta caminhar léguas, ela, tem pernas grossas e nádegas volumosas, aguenta também. A cidade, talvez, fosse melhor. Até uma cama poderiam arranjar. Por que haveriam de viver sempre como bichos fugidos?
Os meninos, longe, despertavam especulações ao casal. O que seriam quando crescessem? Sinhá Vitória não queria que fossem vaqueiros. O cansaço ia chegando à medida que avançava a caminhada, e assim houve uma parada para descanso. Novamente marido e mulher conversavam, fazendo planos, temendo o mau agouro das aves que voavam no céu.
Sinhá Vitória acordou os pequenos, que dormiam, e seguiu-se viagem. Fabiano ainda admirou a vitalidade da mulher. Era forte mesmo! Assim, a cada passo arrastado do grupo um mundo de novas perspectivas ia sendo criado. Sinhá Vitória falava e estimulava Fabiano. Sim, deveria haveria uma nova terra, cheia de oportunidades, distante do sertão a formar homens brutos e fortes como eles. 

http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/vidas-secas-resumo-obra-graciliano-ramos-702011.shtml

terça-feira, 12 de julho de 2016

O MOÇO LOIRO

Joaquim Manoel de Macedo - Livros resumidos
                                         "O MOÇO LOIRO"

            O moço loiro é mais uma das obras tipicamente românticas de Joaquim Manoel de Macedo, o mais popular escritor de sua época. Há uma leve crítica à sociedade da época, em especial na figura da viúva Lucrécia, mas nada de muito profundo.
            Uma cruz de ouro é roubada da família Mendonça. A culpa cai no jovem Lauro, um dos Mendonças, que abandona a família e desaparece.
            Tempos depois, Honorina, prima de Lauro, começa a ser cortejada por bilhetes de um admirador que, misteriosamente, está em todos os lugares e sabe de tudo, utilizando os mais incríveis disfarces - é o moço loiro do título.
            Ele acaba salvando o pai da moça da ruína financeira, causada por um empregado desonesto - que era o verdadeiro ladrão da cruz de ouro. Ele então se revela: é Lauro. Ele e Honorina finalmente ficam juntos e têm o seu final feliz, deixando triste Raquel, amiga de Honorina, que também amava secretamente o rapaz.
            O moço loiro, romance urbano, foi lançado em 1845, ano em que Joaquim Manuel de Macedo aceitaria o cargo de professor no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde passaria a ter contato direto com poetas como Gonçalves Dias e Gonçalves de Magalhães, os quais o aproximariam de questões sociais que o fariam ingressar, posteriormente, na vida política.
            O livro mostra um enredo claro e bem construído, e realiza uma reportagem de época ainda útil para estudiosos e curiosos do imaginário da elite carioca do século XIX.
            O livro é um sensível retrato da sociedade burguesa da antiga capital federal, no século XIX, criticada discretamente pelo autor, que faz do romance um discurso sobre o amor idealizado e, portanto, livre do contato com a realidade, representado nas figuras de Honorina e do herói que dá nome ao livro. Daí segue toda a trama, que, mesmo sendo um retrato social, não se aprofunda em questões políticas ou psicológicas. Apesar dos conflitos existenciais, seus personagens são superficiais, pouco complexos, restringindo-se a pequenos dilemas éticos, com exceção talvez da viúva Lucrécia, metáfora da hipocrisia social de seu tempo. As reflexões encontradas na narrativa são ingênuas, expostas em linguagem simples e, por vezes, demasiadamente explicativas.
            A sentimentalidade, típica dos escritores românticos de sua época, é bastante exacerbada, passando a ser força motora sobre a razão, fazendo com que os personagens se mostrem propensos a viver fora do tempo, sempre fugindo do real em devaneios intermináveis.
Assim, a intriga se desenrola em tom de encantamento, numa tênue linha entre realidade e puro delírio.
Sua leitura se faz valiosa até hoje, tanto por seu tema atemporal - o amor adolescente, as dúvidas e os conflitos interiores que simbolizam tanto esta fase da vida, o sonho do primeiro e verdadeiro amor - quanto pela revelação de alguns aspectos de um Rio antigo, com saraus, pequenas embarcações de transporte com remadores e mansões localizadas no bairro da Glória, frente ao mar.
Enredo Uma cruz de ouro, relíquia de família desde o século XIII, é roubada aos Mendonças, recaindo a culpa sobre um deles, o jovem Lauro, que abandona os seus e desaparece, amaldiçoado pela avó. Sua prima Honorina, anos depois, é cortejada misteriosamente, através de bilhetes, por um desconhecido - que assume os mais estranhos disfarces, intervém, nos mais vários acontecimentos, está em toda parte, sabe tudo, como convém aos heróis folhetinescos.
Ele é o Moço Loiro, que acaba por salvar o pai da moça da ruína (a que o ia levando o empregado infiel, o verdadeiro ladrão da jóia), além de punir os maus, amparar os bons etc.
No final, o óbvio fica evidente: ele é Lauro e casa com a priminha, deixando em conformada melancolia a maior amiga desta, Raquel, que, para variar, também o amava em segredo.
VEJA:  O Moço Loiro é um romance de autoria do escritor brasileiro do romantismo Joaquim Manuel de Macedo. O livro foi publicado em 1845.
O livro é um retrato da sociedade burguesa do Rio de Janeiro no século XIX, que discretamente o autor crítica. O romance é um discurso sobre o amor idealizado, representado nas figuras de Honorina e do herói que dá nome ao livro, o moço loiro, cuja identidade só vem a ser desvendada no final.
O Moço Loiro foi um dos primeiros romances brasileiros. A história tem como tema central o furto da cruz da família de Honorina. Por diversas circunstâncias, seu primo Lauro foi considerado culpado e expulso de casa. Sete anos depois, um estranho, conhecido apenas pela alcunha de "Moço Loiro" aparece e começa a cercar Honorina sob diversos disfarces, dizendo que a amava. Ele cria uma atmosfera de mistério tal que acaba por fazer Honorina se interessar cada vez mais por ele, até acabar se apaixonando. Por ser muito bela, Honorina despertou a paixão não somente no Moço Loiro, mas em vários outros rapazes, e, conseqüentemente, tornou-se alvo da inveja das outras moças da sociedade que freqüentava. Tendo rejeitado todos os seus pretendentes, uma vez que já amava o Moço Loiro, ela e sua família acabam sofrendo com um plano elaborado por um deles, o mais fervoroso, e o mais rechaçado por ela. Felizmente, ela tem um anjo protetor zelando por seu destino. Joaquim Manoel de Macedo tem uma linguagem rebuscada, mas não a ponto de deixar a leitura difícil. Algo que me chamou a atenção é a sua capacidade de retratar a sociedade brasileira daquela época, chegando até mesmo a denunciar com ironia e comicidade, em alguns casos, a falsidade que reinava entre as pessoas.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Vestibular 2016.2



  Livros:      VESTIBULAR    UVA  2016.2

                               
                                 Olhai os Lírios do Campo  - Érico Veríssimo
                  Dona  Guidinha do Poço – Manuel Oliveira Paiva
                  O Grande Mentecapto – Fernando Sabino
                 A Bagaceira – José Américo de Almeida
                 O Moço Loiro   - Joaquim Manuel de Macedo

A Bagaceira



A Bagaceira, de José Américo de Almeida

Análise da obra
A bagaceira, publicada em 1928, é a obra introdutora do romance regionalista no país. A colisão dos meios pronunciava-se no contato das migrações periódicas. Os sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome de brejeiro cruelmente pejorativo.
O enredo do romance trata das questões do êxodo, os horrores gerados pela seca, além da visão brutal e autoritária do senhor de engenho, representando a velha oligarquia. A Bagaceira tem intenção crítica social, descambando, às vezes, para o panfletário, para o enfático e demagógico. Para o autor, o romance procura confrontar, em termos de relações humanas e de contrastes sociais, o homem do sertão e o homem do brejo (dos engenhos). Aproximando o sertanejo do brejeiro, na paisagem nordestina, José Américo de Almeida condiciona os elementos dramáticos aos ciclos periódicos da seca, os quais delimitam a própria existência do sertanejo.

Sob iluminação diferente, são postos em confronto, em A Bagaceira, os nordestinos do brejo e os do sertão. Brejeiros e sertanejos, submissão e liberdade, eram examinados com uma visão realista, se bem que, no registro das virtudes sertanejas possa notar-se, vez por outra, certo favorecimento (não intencional).
O título desse romance denomina o local em que se juntam, no engenho, os bagaços da cana. Figuradamente, pode indicar um objeto sem importância, ou ainda, "gente miserável". Todos esses significados se podem mobilizar no entendimento de A Bagaceira, romance de ardor e violência, desavenças familiares, flagelações da seca.
O autor que, antes, estreara vitoriosamente no ensaio, deixa transparecer aprofundado conhecimento do ambiente e do homem paraibano, anotando pormenores, acentuando os traços mais definidores, integrado na paisagem e na estrutura social cheia de injustiças.

O tempo é entre 1898 e 1915, os dois períodos de seca. Tangidos pelo sol implacável, Valentim Pereira, sua filha Soledade e o afilhado Pirunga abandonam a fazenda do Bondó, na zona do sertão. Vão para as regiões dos engenhos, no rejo, onde encontram acolhida no engenho Marzagão, de propriedade de Dagoberto Marçau, cuja mulher falecera por ocasião do nascimento do único filho, Lúcio. Passando as férias no engenho, Lúcio conhece Soledade por quem se apaixona. Lúcio retorna à academia e quando retorna em férias para a companhia do pai, toma conhecimento de que Valentim Pereira se encontra preso por ter assassinado o feitor Manuel Broca, suposto sedutor e amante de Soledade. Lúcio, já advogado, resolve defender Valentim e informa o pai de sua intenção de casar-se com Soledade. Dagoberto não aceita a decisão do filho. E então tudo é esclarecido: Soledade é prima de Lúcio, e Dagoberto foi quem realmente a seduziu. Pirunga, tomando conhecimento dos fatos, comunica ao padrinho (Valentim) e este lhe pede, sob juramento, velar pelo senhor do engenho (Dagoberto), até que ele possa executar o seu "dever": matar o verdadeiro sedutor de sua filha. Em seguida, Soledade e Dagoberto, acompanhados por Pirunga, deixam o engenho e se dirigem para a fazenda do Bondó. Cavalgando pelos tabuleiros da fazenda, Pirunga provoca a morte do senhor do engenho Marzagão, herdado por Lúcio, com a morte do pai. Em 1915, por outro período de seca, Soledade, já com a beleza destruída pelo tempo, vai ao encontro de Lúcio, para lhe entregar o filho, fruto do seu amor com Dagoberto.

O relato abre o ciclo do romance de 1930, entre outras razões por sua força de denúncia dos horrores gerados pela seca.
É digno de nota o prefácio que vale tanto ou mais do que próprio texto narrativo. Destaque para o espanto do escritor face às mazelas: "Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã."
Na narrativa há um choque de três visões que correspondem a três processos sócio-culturais distintos:
1) Visão rústica dos sertanejos, com seu sentido ético arcaico.
2) Visão brutal e autoritária do senhor de engenho, representando a velha oligarquia.
3) Visão civilizada (moderna, urbana) de Lúcio, traduzindo um novo comportamento de fundo burguês e que logo seria autorizado pela Revolução de 30.
É digno de nota o projeto modernizador do personagem Lúcio ao assumir o comando do engenho: alfabetização dos filhos dos trabalhadores, melhores condições de habitação, etc. Ou seja, aquilo que Getúlio Vargas proporia nos anos seguintes como alternativa para o país.
O livro apresenta uma mistura de linguagem tradicional - dominada por um tom desagradavelmente sentencioso - com um gosto modernista por elipses e imagens soltas, e ainda pelo uso de algumas expressões coloquiais ou regionais. Na obra a linguagem do narrador faz esforço para não se afastar em demasia da dos personagens, dialetal, folclórica.
Fora sua notável importância histórica, A bagaceira é um romance frustrado por causa do excesso de análise sociológica. É como se a ânsia do autor em tudo explicar, destruísse todo e qualquer efeito sugestivo da narrativa. 
Personagens centrais
Dagoberto Marçau - Proprietário do engenho Marzagão, simboliza a prepotência,  contrapondo-se à fraqueza dos trabalhadores da bagaceira. Considera-se "dono " da justiça e seu código é simples: "O que está na terra é da terra". Se ele é o senhor da terra, tudo que nela dá é da terra (ou seja, dele próprio). "Se ele é o senhor da terra, tudo que nela se encontra lhe pertence, até os próprios homens que trabalham no engenho. Assim pensa e assim age. Seduz  Soledade, vendo  na sertaneja semelhança com sua ex-mulher.

Lúcio - Humano, idealista, sonhador, apaixona-se por Soledade, com quem mantém um romance puro. Não compartilha as idéias de seu pai, Dagoberto Marçau, para quem "hoje em dia não se guarda mais na cabeça: só se deve guardar nas algibeiras. "Acreditava que  se podia desmontar a estrutura anacrônica do engenho: "Quanta energia mal empregada na desorientação dos processos agrícolas! 
A falta de método acarretava uma precariedade responsável pelos apertos da população misérrima. A gleba inesgotável era aviltada  por essa prostração  econômica. A mediania do senhor rural e a ralé faminta".
Soledade - Filha de Valentim Pereira, representa a beleza agreste do sertão. Aos olhos de Lúcio, a sertaneja. "não correspondia pela harmonia dos caracteres às exigências do seu  sentimento do tipo humano. Mas, não sabia por que, achava-lhe um sainete novo na feminilidade indefinível. As linhas físicas não seriam tão puras. Mas o todo picante tinha o sabor esquisito que se requintava em certa desproporção dos contornos e, notadamente, no centro petulante dos olhos originais."... "Era o tipo modelar de uma raça selecionada , sem mescla, na mais sadia consangüinidade."
A presença da sertaneja no engenho colocará uma barreira ainda maior entre Dagoberto e Lúcio. Por  Soledade Valentim se torna assassino e Pirunga causa a morte do senhor de engenho.
Valentim Pereira - Representa o sertão: destemido, arrojado e altivo. Como bom sertanejo pune pela honra de uma mulher, mata o feitor Manuel Broca, apontado como sedutor de sua filha. Mas a  "idéia fixa da honra sertaneja" vai além: a cicatriz que lhe marcava o rosto era resultado de uma briga mortal com um amigo, que desonrara uma  moça, neta de um "velhinho", de quem o tempo quebrara as forças. O diálogo entre Valentim e Brandão de Batalaia (assim se chamava o "velhinho")  é bem ilustrativo: "Que é que vossamecê manda? Ele respondeu que só queria era morrer. Eu ajuntei: E por  que não quer matar?..."
Pirunga - Filho de criação de Valentim Pereira, a quem tributa lealdade. Ama Soledade, mas seu amor não encontra receptividade. Assim como Valentim, simboliza o sertão: valente, intrépido, altivo... Por ocasião da festa no rancho, vai em defesa de Latomia: enfrentando a polícia.
                                                                Site: www.passeiweb.com/estudos/livros/a_bagaceira

O marco inicial da segunda fase do Modernismo brasileiro é considerado o lançamento do romance A bagaceira, de José Américo de Almeida, em 1928. Inaugura o ciclo do “romance nordestino” dos anos 30.
O enredo baseia-se no êxodo da seca de 1898, descrito como "(...) Uma ressurreição de cemitérios antigos - esqueletos redivivos, com o aspecto e o fedor das covas podres.(...)".   

Obra-prima do romance regionalista moderno, hoje com trinta e duas edições em língua portuguesa, edição crítica e versões em espanhol, francês, inglês e esperanto. Sua obra, com dezessete títulos, abriga ainda ensaios, oratória, crônica, memórias e poesia.

A Bagaceira foi o livro com o qual José Américo, político de grande influência na Paraíba, destacou-se na literatura. Retrata o nosso nordeste e a dificuldade dos habitantes em lidar com a seca.

José Américo foi um dos responsáveis pela criação do novo romance regionalista brasileiro, com o seu A bagaceira. Contudo, sua carreira de escritor acabou ficando em segundo plano devido à sua forte atuação na política.

Nasceu em 1887 no município de Areia, na Paraíba, filho de uma família de forte influência política na região. Estudou direito em Recife, formando-se em 1908; foi promotor-geral e consultor-geral do estado da Paraíba. Publicou seu primeiro livro em 1921, projetando-se como escritor com A bagaceira, em 1928.

Participou da gestão de João Pessoa no governo da Paraíba, apoiando a candidatura de Getúlio Vargas à presidência - João Pessoa era o vice na chapa. Participou do movimento revolucionário que pôs Getúlio no poder, depondo Washington Luís e impedindo a posse do eleito Júlio Prestes; tal movimento foi acelerado pelo assassinato de João Pessoa. Foi nomeado por Vargas governador da Paraíba e, depois, ministro da Viação e Obras Públicas. Mais tarde, elegeu-se senador pela Paraíba.

Colocou-se como candidato da situação à sucessão de Vargas, sendo frustrado pelo golpe que cancelou as eleições e fechou o Congresso, o que o levou a afastar-se de Vargas, chegando mesmo a fazer-lhe oposição. Reconciliou-se mais tarde com Vargas, participando de seu segundo governo. Após seu suicídio, deixou o ministério que ocupava e voltou para o governo da Paraíba, abandonando os cargos públicos ao fim do mandato. Manteve, porém, a influência na região por muitos anos, apoiando inclusive o golpe militar de 1964. Em 1967, entrou para a Academia Brasileira de Letras. Morreu em João Pessoa em 1980.

                         Site: maicongoncalves.xpg.uol.com.br/literatura/joseamerico-abagaceira-resumo.htm


ALMEIDA, José Américo de. A Bagaceira. São Paulo edição Integral. Círculo do Livro S/A 1980.p.224. O romance, “A Bagaceira”, é um romance ficcional e essa afirmação deve-se ao fato de ser uma história inventada pelo autor baseada em fatos reais, sabe-se que não é algo acontecido, mas, há a coerência interna que dá credibilidade à narrativa, é também narrado em 3ª pessoa porque o autor se situa fora dos acontecimentos e têm-se como personagens centrais Dagoberto Marçau, Lúcio, Soledade, Pirunga e Valentin.
               O romance se passa entre 1898 e 1915 e a intencionalidade do autor, desta trágica história de amor, serve puramente como pretexto para denunciar a questão social no Nordeste. Eram postos em confronto em A Bagaceira, os nordestinos do brejo e os do sertão. Brejeiros e Sertanejos submissão e liberdade são examinadas com uma visão realista, se bem que, no registro das virtudes sertanejas, possa notar-se, vez por outra, certo favorecimento do autor aos sertanejos do sertão.
               “O autor antes estreara vitoriosamente no ensaio, deixando transparecer aprofundado conhecimento do ambiente e do homem paraibano, anotando pormenores, acentuando os traços mais definidores, integrado na paisagem e na estrutura social cheia de injustiça”, (Ivan Cavalcanti Proença).
O título desse romance denomina o local que se juntam, no engenho, os bagaços da cana. Figuradamente, pode indicar um objeto sem importância, ou ainda, gente miserável.
                Dois são os planos básicos do romance: por um lado, temos a denúncia da questão social do nordeste e a análise da vida dos retirantes que chegam de tempos em tempos e não são bem vistos pelos trabalhadores permanentes dos engenhos (os brejeiros); por outro lado, o amor de Soledade e Lúcio, que tem um desfecho dramático, o qual se inicia quando o pai de Lúcio, Dagoberto, violenta Soledade e faz dela sua amante.
              Devido ao sol implacável, Valentin Pereira, sua filha Soledade e o filho adotivo Pirunga abandonam a fazenda do Bondó, na zona de sertão. Encaminham-se para as regiões dos engenhos, no rejo, onde encontram acolhida no Engenho Marzagão, de propriedade de Dagoberto Marçau, cuja mulher falecera por ocasião do nascimento do único filho, Lúcio, este sendo mandado para a cidade para estudar direito. Passando as férias no engenho, conhece Soledade, e brota um forte afeto, mas o rapaz hesita em dar plena seqüência ao flerte por não ter convicção de que seria capaz de amá-la no contexto urbano e intelectualizado, no qual ele vivia. Retorna para a academia e quando volta, em férias, à companhia do pai, toma conhecimento de que Valentim Pereira se encontra preso por ter assassinado o feitor da fazenda Manuel Broca, suposto sedutor de Soledade. Lúcio, já advogado, resolve defender Valentim e informa o pai do seu propósito: casar-se com Soledade. Dagoberto não aceita a decisão do filho e não vê outra saída se não contar a verdade para o filho, que tinha sido o autor da desonra de Soledade. Pirunga, tomando conhecimento dos fatos, comunica a Valentin e este lhe pede, sob juramento, velar pelo senhor do engenho, até que ele possa executar o seu dever, matar o verdadeiro sedutor de sua filha. Em seguida, Soledade e Dagoberto, acompanhados por Pirunga, deixam o engenho e se dirigem para a fazenda do Bondó. Cavalgando pelos tabuleiros da fazenda, Pirunga provoca a morte do senhor de engenho. Marzagão é herdado por Lúcio, com a morte do pai.
                 Em 1915, por outro período da seca, Soledade já com a beleza destruída pelo tempo, vai ao encontro de Lúcio para lhe entregar o filho dela com seu pai, ou seja, o irmão de Lúcio.
                Segundo Afrânio Coutinho, o livro de José Américo de Almeida surge no momento em que a República Velha, apoiada nos tradicionais setores dos proprietários de terras, entrava em crise e era associada pelo entusiasmo corajoso, mas desnorteado de jovens políticos e oficiais, afirma ainda mais, que o livro refletia e atacava o velho sistema da concentração latifundiária no Nordeste, que lhe aparecia como uma das vigas da miséria da região. Este grito de insubmissão contra o decrépito, o tom direto com que passava a ser expressa, a luta do carcomido contra a mocidade e ao elemento sentimental do enredo devem ter exercido um papel relevante na euforia com que foi recebido.
                  Na visão de Alfredo Bosi, A Bagaceira tem intenção crítica social, descambando às vezes para o panfletário, para o enfático e demagógico. Para o autor, o romance procura confrontar, em termos do sertão e o homem do brejo (dos engenhos). Aproximando o sertanejo do brejeiro, na paisagem nordestina, José Américo de Almeida condiciona os elementos dramáticos aos ciclos periódicos da seca, os quais delimitam a própria existência do sertanejo, e afirma ainda que passou a marco da literatura social nordestina. Crendo que se dava não tanto aos seus méritos intrínsecos quanto por ter definido uma direção normal (realista) e um veio temático.
                 Ora, se o romance é uma mentira disfarçada para mostrar a miséria e injustiça do povo do nordeste, que mal há? O importante é saber que em 1928 o autor já tinha uma visão futurista, pois, a questão continua existindo até os dias de hoje. Há a fome, a migração, os senhores do engenho que continuam lá, que não deixam de ser os políticos, com seus discursos falaciosos iludindo aquele povo de que solucionarão o problema da seca, sendo que na realidade, seca se resume nos corações das pessoas que não se importam com a miséria humana, não só dos sertanejos, mas de todos que se esgueiram da fome. José Américo, em momento algum, descreve no romance uma ceia, com uma mesa farta, até na mesa do senhor do engenho não aparece fartura, é nas personagens que o autor deixa bem explícito o propósito do romance, se é que tinha um.
                Dagoberto Marçau é o símbolo da prepotência, é o dono da terra, e tudo o que lá esta, a ele pertence, representa aquele que é contra a reforma agrária; Lúcio já é mais humano, idealista, sonhador, quando herda o engenho, devido à morte de seu pai, ele dá inicio à modernização da propriedade que fora do pai, tanto em termos produtivos quanto em termos sociais. E Soledade, quantas Soledades existem ainda? Muitas. No nordeste o que mais tem são Soledades,
                      As Soledades são as filhas dos empregados dessas fazendas, que se iludem com o moço que vai para o centro urbano estudar e passam as férias na fazenda de seus pais ricos e brincam com os sentimentos delas ou elas, às vezes, deixam-se brincar pelos próprios sentimentos, resultando numa gravidez inesperada e não havendo outra saída se não ir desembarcar na rodoviária do Glicério, em São Paulo, para fugir da vergonha causada a seus familiares. A personagem Soledade, presente no engenho coloca uma barreira entre pai e filho, porque Soledade representa a beleza agreste do sertão. Valentin representa o sertão: destemido, arrojado e altivo. Como sertanejo, pune pela honra de uma mulher, ele pune em honra de sua filha e, Pirunga assim como Valentim também simboliza o sertão: valente, intrépido, altivo. Por ocasião de uma festa no rancho, vai a defesa de Latomia, um dos retirantes, enfrentando a policia, “O sertanejo fazia frente a toda tropa na confusão do conflito corpo a corpo. Seu olhar fuzilava na treva como um sabre desembainhado”.
                  Ainda com relação às personagens em uma análise mais técnica, Dagoberto e Soledade se enquadram na categoria das personagens de natureza, por que além dos traços superficiais, seus modos íntimos de serem impede que tenham a regularidade dos outros e Lucio, Valentin e Pirunga já são mais planas, pois o autor as construiu em torno de uma qualidade.
                De acordo com o professor Joel Pontes, UFP, já falecido, em crítica publicada no livro Pequeno Dicionário da Literatura Brasileira, organizado pelos Professores Massaud Moisés e José Paulo Paes, o romance foi a base para a consolidação da obra de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Raquel de Queirós, pois, personagens como Dagoberto, Pirunga e Soledade retomam mais bem caracterizados nas obras dos escritores posteriores. Mas ele deixa claro que, tecnicamente, o romance não inova a prosa nordestina, pois ainda é um romance de tese e cita um capítulo que possa provar, que é “O Julgamento”, típico dos romances do século XIX e também presente em os “Sertões”, de Euclides da Cunha.
             Portanto, o destaque do romance fica por conta do lastro sociológico e da poeticidade de cenas e sentimentos. Outro destaque também é a narrativa do romance. Como o narrador se situa fora dos acontecimentos, é um observador onisciente, apresentando um trabalho de linguagem muito rico, ele utiliza-se de uma linguagem de acordo com a norma culta da língua portuguesa, talvez pelo fato do autor ter estudado direito. As falas das personagens reproduzem o falar sertanejo, a dicotomia entre a linguagem refinada do narrador e a brutalidade da linguagem das personagens cria uma tensão lingüística que é um dos aspectos mais salientes e importantes do romance.
               Guimarães Rosa afirmou que José Américo “abriu para todos os caminhos do moderno romance brasileiro”. De uma maneira contundente está presente no romance à miséria do sertão; a brutalidade do ser humano nordestino; as relações entre os senhores do engenho e os seus empregados, e isso, talvez pelo fato do autor ter exercido vários cargos políticos e nascido na região, onde se passa o desfecho do enredo do romance. Há uma ânsia em querer denunciar os flagelos que a seca causou àquela gente e percebe-se uma vontade enorme dos retirantes voltar ao sertão, o que não deixa de ser à vontade do próprio autor voltar a sua origem.
O romance se abre com um prefácio manifesto intitulado “Antes que me falem”, em que o autor expõe alguns dos princípios básicos que haveriam de nortear, não apenas a composição da sua obra, mas também o regionalismo de 30.
               “O regionalismo é o pé-de-fogo da literatura... Mas a dor é universal, porque é uma expressão da humanidade. E nossa ficção incipiente não pode competir com os temas cultivados por uma inteligência mais requintada: só interessará por suas revelações, pela originalidade de seus aspectos despercebidos”.
                  Site:http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/2412067